Parto, amor e empoderamento

Inspiração

Mudar o mundo, uma família de cada vez”, esse é o objetivo das empresárias Ana Cyntia Baraldi e Iara Silveira fundadoras da Luz de Candeeiro – uma empresa especializada em parto domiciliar. Enfermeiras, com sólida formação em obstetrícia e neonatologia, Ana e Iara começaram suas carreiras de maneira bem diferente, mas o destino logo deu jeito de elas se encontrarem e seguirem com a linda missão de transformar um dos momentos mais importantes da vida de uma mãe: o dia em que ela recebe o bebê em seus braços.

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Tudo começou quando, após concluir a faculdade de enfermagem, Iara passou a atender partos domiciliares e dessa vivência percebeu que cada família tinha seus próprios rituais de cuidado, de relacionamento e do processo de gestação como um todo. “Isso me despertou interesse em estudar os rituais praticados no parto domiciliar, pois percebi que, para prestar uma assistência individualizada, há de se respeitar os saberes familiares, afim de prestar um cuidado que seja culturalmente congruente.” – explica Iara.

Ana, por sua vez, passou pela residência em enfermagem obstétrica vivendo outra realidade: atendia partos hospitalares no modelo “tradicional”. Na época já havia o ensino da humanização – mas não como vemos hoje – e surgiu um sentimento de insatisfação com a maneira em que as mulheres eram tratadas no momento de terem seus filhos. A aprovação num concurso e a mudança para Brasília permitiram que Ana tivesse contato com parteiras tradicionais o que deu a ela a oportunidade de conhecer mais a fundo conceitos como empoderamento feminino e protagonismo da mulher no nascimento dos seus bebês. “As coisas começaram a fazer sentido nesse momento. Comecei a participar de cursos e oficinas com parteiras, a estudar o parto domiciliar a fundo e fiz um curso de formação em Florianópolis com o Hanami, grupo em que a Iara trabalhava na época. Meu coração e meu racional já estavam convencidos de que o parto não era um ato médico, mas um evento natural da vida sexual da mulher.

Quatro anos após esse encontro, a Luz de Candeeiro já atendeu mais de 200 famílias, colecionando histórias de amor e superação e – principalmente – sem nenhum desfecho negativo, mas sim com mulheres e famílias sentindo-se respeitadas e bebês nascendo em segurança.

O nome da empresa vem de uma homenagem às parteiras que por muito tempo acendiam seus candeeiros e saiam pela noite para atender partos nas comunidades mais simples. A luz do candeeiro é quente e acolhedora, nem tão forte e nem tão fraca, suficiente para iluminar a simplicidade do nascimento que acontece em casa – um evento da natureza humana, que, na medida do possível, deve ser vivido com intimidade e privacidade, culminando no nascimento como uma celebração respeitosa à vida.

Como não existe na enfermagem brasileira uma cultura de profissionais liberais, empreender nessa área traz alguns desafios próprios como a falta de formação acadêmica para lidar com assuntos específicos do mundo empresarial, tais como: questões burocráticas e legislação para pequenas empresas.

Esses – e outros – aprendizados Iara e Ana vêm conquistando na prática e nessa hora a sinergia entre as sócias faz toda a diferença. “Existe uma divisão do trabalho mas ela foi construída naturalmente e de acordo com afinidades. A Iara gosta mais das questões administrativas, então ela é encarregada de todos os pagamentos, banco, impostos, funcionária, etc. Eu sou a pessoa responsável por comprar materiais para o parto, verificar validade das medicações, abastecer a página do Facebook, buscar e publicar artigos científicos, abastecer nosso banco de dados, entre outras coisas.” – explica Ana.

Aliás o companheirismo entre as duas é tão forte que certa vez uma paciente disse que o partejar delas parecia um balé. Ana concorda: “É assim mesmo que nos sentimos. Nos comunicamos sem palavras e isso só o tempo e a afinidade podem proporcionar.

E qual é o segredo para uma parceria tão forte vivida muitas vezes em momentos desfavoráveis, de longas madrugadas de trabalho em claro?

Quando os atritos aparecem resolvemos rápido, sem deixar acumular questões que possam estar incomodando. Talvez a chave para isso seja a sinceridade que exercitamos em nossa relação. Temos liberdade suficiente para dizer para a outra o que não está bom e ter ouvidos abertos para escutar críticas construtivas sem se ofender. Uma coisa muito boa que os anos nos trouxe foi uma admiração mútua e uma história juntas que nos enche de orgulho.

Nós acreditamos que mudando o nascimento mudamos também a formação de vínculo entre os pais, dos pais com os bebês, dos bebês com os irmãos. O que nos enche de orgulho é ver o amor nascer junto com os bebês, é construir relações verdadeiras com as famílias que atendemos e colecionar amigos ao longo da nossa trajetória.”

Há pouco mais de dois meses uma nova – e muito desejada – etapa da empresa saiu do papel: a inauguração do Espaço Luz do Candeeiro – um local para reunir gestantes, famílias, mulheres e seus bebês. O objetivo é formar uma grande rede de apoio de acolhimento da mulher, além de oferecer um refúgio para que elas possam desacelerar, respirar fundo e vivenciar com calma todas as transformações que a gestação e maternidade proporcionam.

Os planos para o futuro incluem trabalhos voltados ao empoderamento da mulher, do resgate da feminilidade, além de formação e treinamento de novos profissionais nesse modelo de atenção e trabalho em equipe.

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Se houve um momento em que duvidaram estar no caminho certo?Nunca duvidamos, muito pelo contrário, cada parto que atendemos fortalece ainda mais a nossa vontade de continuar. Quando vemos nosso trabalho como missão, não tem muita possibilidade de desistir, a missão é nobre e é grande!” afirmam as empresárias. Disso temos a mais absoluta certeza!

Sobre o parto domiciliar

O processo de acompanhamento da mãe que escolhe ter seu filho em casa acontece desde o início da gestação. Assim como no pré-natal, as consultas são mensais até 30 semanas de gestação, quinzenais de 30 a 36 semanas e semanais até o nascimento.

Além das questões fisiológicas como o crescimento uterino, monitoramento da pressão arterial, exames complementares e ecografias, o envolvimento da família é parte fundamental do processo. Bem como os aspectos emocionais da mãe, inclusão do irmão no processo de gestação e parto, feminilidade, referenciais maternos, sexualidade e relacionamento.

O cuidado à família continua dentro de todo o primeiro mês pós parto. São 4 visitas para avaliação do bem estar da mulher e do bebê e também auxílio no que for necessário: primeiros cuidados, banho, limpeza do umbigo, amamentação, cólicas, baby blues e o que mais for necessário.

Nós acreditamos que um parto bem vivenciado possibilita que as mulheres possam passar por profundas transformações, superações de traumas e mudança de padrões de comportamento. Temos a oportunidade de ver o amor nascendo em cada parto, o vínculo se estabelecendo, histórias difíceis sendo superadas.” – conta Ana.

Para ter um parto domiciliar a mulher tem que ter uma gestação entre 37 e 42 semanas e de risco habitual, ou seja, sem doenças como diabetes ou hipertensão. Mas essa ainda é uma prática repleta de preconceito tanto da rede de apoio hospitalar – caso a mulher necessite de um encaminhamento para o hospital – quanto do médico e, muitas vezes, também da família, o que faz com que a mulher tenha que suportar uma carga emocional muito grande para seguir com sua escolha.

Na busca de diminuir essas barreiras, Ana e Iara contam com o apoio de médicos que dão suporte para a equipe no pré-natal e para as transferências de parto domiciliar. Em relação aos familiares, o importante é inclui-los no processo – o que não significa que estarão juntos na hora do parto – mas no sentido de incentivar as mulheres a levarem seus parentes às consultas para tirar dúvidas e construírem segurança. Além disso, constantemente acontecem no Espaço Luz de Candeeiro rodas de conversa gratuitas que propiciam um ambiente seguro para os casais encontrarem fortalezas em outras pessoas que fizeram a mesma opção que eles.