Para comer com os olhos

Inspiração

Ter um filho que come mal é motivo de preocupação e até um certo desespero para muitas mães. Com a empresária Vânia Estrela não foi diferente. “Aos 2 anos de idade, minha filha mais velha – hoje com 4 anos – era muito seletiva para comer. Só gostava de alimentos ‘redondos’. Ovo de codorna, tomate cereja, ervilha, feijão, jabuticaba, laranja.

Mesmo atribulada com a chegada do segundo bebê, Vânia fazia questão de levar a pequena Maria Luísa ao supermercado para estimulá-la tocando e escolhendo as verduras e legumes e assim abrir o leque de opções do cardápio. “Foi quando tive a ideia de confeccionar as peças e montar um verdadeiro mercadinho na minha casa, para ver se brincando ela tomava gosto por algum.” E, aos poucos, foi dando certo. “As bonecas experimentavam de tudo! Na hora do almoço ou jantar eu sempre a lembrava: Lembra aquela cenoura que você deu para sua boneca? Pois é! É igual a essa aqui. Vamos experimentar? Ela foi quebrando o padrão seletivo e experimentando coisas novas.”

Vânia começou a fabricar as primeiras peças por pura intuição – e uma boa dose de talento, é claro! “Eu nem imaginava como ia fazer. Tanto que se eu comparar o meu primeiro bolinho com os que eu faço agora eu começo a rir!” Depois de muita pesquisa chegou à conclusão que o feltro seria o melhor material para confeccionar as comidinhas. Por ser versátil e fácil de manusear, quando bem trabalho, agrega valor à peça final. Além do feltro, a espuma que vai dentro das peças é o grande segredo. “Desenvolvi uma técnica para esculpir e deixá-la exatamente no formato que eu quero, o que aproxima ainda mais as peças dos alimentos reais.” Como o objetivo principal é fazer a criança manusear enquanto brinca, Vânia desenvolveu algumas técnicas de corte e impermeabilização e sempre orienta os clientes sobre como deve ser feita a lavagem das peças. Brincadeira com segurança!

O trabalho é totalmente manual, feito um a um, costurados com ponto caseado para fechamento. Algumas peças chegam a demorar 4 dias para ficarem prontas – como é o caso da melancia e do milho.

E o que era pra ser uma brincadeira acabou virando negócio. “Comecei em 2014, fazendo peças para presentear amigos e parentes e em janeiro de 2015 nasceu a Papá de Pano.

Hoje a Papá de Pano tem uma loja virtual, fanpageperfil no Instagram. A demanda é grande e surge, em sua maioria, de nutricionistas, pedagogos, pediatras, dentistas e, é claro, mães.

papadepano

 

O próximo passo é a inauguração de um ateliê em Brasília. Além da fabricação das peças, o espaço oferecerá a cursos e palestras de assuntos ligados desde a alimentação na primeira infância, até brincadeiras educativas para pais e cuidadores, arte e artesanato para crianças.

Esse espaço foi inspirado nas ideias de Piaget, que influenciou a educação de maneira profunda. Com a experiência do Papá de Pano, e observando de forma mais minuciosa o comportamento das minhas filhas, sobrinhos, amiguinhos da escola comecei a estudar mais o tema do construtivismo e adaptei alguns conceitos à rotina da minha família.” Explica Vânia. “Seria extremamente difícil fazer a minha filha mais velha comer sem deixá-la tocar na comida, sentir a textura, observar o que aconteceria se ela misturasse tudo com a mão. Só de pensar na bagunça que eu ia ter que arrumar depois da brincadeira já me dava calafrio. Mas, comecei a perceber que esse processo era extremamente importante para a tomada de decisão dela. Ou seja, queria que ela comesse do meu jeito, e não do dela. Quando eu tive consciência de que aprender é uma interpretação pessoal do mundo, ou seja, individualizada, um processo ativo que precisa ser desenvolvido por meio da experimentação, eu mudei!

O ateliê Papá de Pano tem como proposta resgatar atividades do “faça você mesmo”, para que a criança compartilhe com a família e depois possa repetir esse processo considerando seus aspectos individuais. A expectativa é até novembro ter as primeiras turmas formadas.