Brigadeiro da Manu

Inspiração

A Bia é daquelas pessoas que entra na sua vida e fica ali pra sempre, seja pelo seu lindo sorriso, pelo seu papo gostoso ou pela sua sensibilidade. Somos amigas há alguns anos e, mesmo quando nossos caminhos não se cruzam o tanto que gostaríamos, temos um enorme carinho uma pela outra.

Das inúmeras características que a tornam pra lá de especial, uma delas é o dom da escrita. De tempos em tempos ela nos presenteia com textos incríveis, repletos de sensibilidade e que nos instigam a refletir sobre aspectos cotidianos da vida mas que aos seus olhos são vistos como oportunidades de nos tornamos pessoas melhores.

No texto abaixo ela conta sobre a experiência da sua filha vendendo brigadeiros numa praia do Ceará. Mais do que um relato, suas palavras me levaram a pensar como tratamos a questão do empreendedorismo com nossas crianças. Se de fato as incentivamos a correr atrás dos seus sonhos e deixamos tomar os “nãos” tão necessários para o amadurecimento. Indo um pouco mais além, como enxergamos esses pequenos empreendedores ávidos por descobrir o novo, sem as amarras do medo e as limitações da vida adulta.

“Manu teve a ideia de ir vender brigadeiro na duna de Jericoacoara na hora do pôr do sol. Um dia antes estavamos lá e ela caiu de amores por uma moça argentina que vendia tortas de maçã.

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Mesmo com preguiça de todo o processo, topei, pensando no quanto a gente faz força pra criança ler, estudar, e todos os derivados, mas tão raramente ter essas primeiras emoções (que podem ser tão fundamentais quanto) de vender o seu peixe, convencer alguém, ganhar sua graninha ali, na hora.

Mãos à obra e um par de horas depois tínhamos um isopor recém-adquirido com duas dúzias de brigadeiros estalando. Fomos pra rua, comigo prometendo ficar à distância pra não atrapalhar.
[e bem aí me esperava, mas eu não sabia, um teco da experiência meio dura de ficar vendo de longe, sem poder interferir, a filha se havendo com a carne viva do mundo. Guenta.]

A maioria das pessoas nem a olhava. Algumas soltavam um não oco, sem olhar igual. 

Visível era que a maior parte simplesmente não dispunha de espaço pra perceber passar uma menina de 8 anos com todas as suas esperanças do momento empacotadas num isopor. [E que quando é assim, nós, feitos do mesmo, temos mais é que parar tudo e nos botar pra ver.]

Mas não. Ninguém se interessou até chegarmos perto dos vendedores ambulantes e camelôs em que eu já tinha esbarrado umas dezenas de vezes na praia e achado meio chato, verdade a ser dita, porque são muitos e o tempo todo hoje em dia em Jeri. Eles, com suas pulserinhas e tornozeleras tão surradas e sem novidades, as mesmas praticamente dos meus verões de vinte anos atrás, e que já tinham me dado uma pena danada – será que alguém ainda compra isso? 

Pois eles a sacaram assim que gritou por perto “olha o brigadeiro da Manu, quentinho, quem vai querer?”. Acharam graça, pediram pra ver, compraram quase todos, sem pedir nem desconto. O último, vendedor de milho, me fez quebrar a promessa da distância e correr rápido falando sem pensar “pra ele dá uma amostra grátis, Manu”, ao que ele me olhou meio feio já com o real na mão e dizendo “tá aqui o dinheiro dela, moça”. 

Manu cansou e voltamos. Ela feliz da vida botando pra dentro o saldo de três brigadeiros. Eu meio troncha da constatação doída de se fazer: os “fracos” de quem eu tinha tido pena/certa irritação mostrando sua força tamanho duna ao enxergarem clara a fantasia e a luta dos outros (pequena, grande, de todo dia ou só de brincadeira); os “fortes”, de carteiras recheadas e tudo tão milimetricamente planejado pros seus dias de folga, tão frágeis nas suas ceguerias de só verem brigadeiros, se é que viram, e uma menina gritando e talvez perturbando seu projeto de tranquilidade na praia.

Era só invenção de moda nossa pra passar tempo de férias, mas eu acabei a noite foi rezando: por favor, muito por favor, você que dá e que tira, me dê e não tire mais esses olhos dos pequenos que nunca desaprendem a enxergar. Em troca, tem problema não, pode esvaziar minha carteira e bagunçar meus planos.”